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Capa - Fertilização in vitro um empurrãozinho à mãe natureza PDF Imprimir E-mail
Ter, 08 de Junho de 2010 17:47

De cada cem casais que tentam engravidar, entre 10 e 15 não conseguem realizar o sonho de ter filhos naturalmente. Mas, através da ajuda da ciência, os médicos auxiliam na fertilização. É um verdadeiro milagre da vida nascido de dentro de um laboratório

 

Rose Domingues

Chega um momento em que a maioria dos casais impreterivelmente resolve ter filhos. Estáveis no relacionamento, com equilíbrio profissional, financeiro e de olho no relógio biológico da mulher eles tomam a decisão. Ela vai ao médico, faz um chek-up e simplesmente para de evitar. Os sonhos com bebês bochechudos e risonhos viram uma rotina. A ansiedade aumenta quando, a cada mês, nada acontece. Acreditando que a natureza tem seu tempo certo, eles aguardam um ano, tempo recomendado pelos especialistas. Mais do que isso pode ser problema de infertilidade. Se há 30 anos os anseios de se ter um filho morriam porque a concepção não acontecia por via natural, hoje os casais já não precisam se resignar aos desígnios de Deus. O avanço da medicina tem permitido que mais de 60% das mulheres com menos de 32 anos engravidem a partir da fertilização in vitro. Aos 40 anos, essa taxa varia entre 30% e 10% por tentativa, o que é uma vitória sobre a mãe natureza.

Felizmente, a maternidade está ao alcance de todas as mulheres! A empresária Thaís Trevisan, de 37 anos, passou por momentos de angústia diante da impossibilidade de ter um bebê. Estava casada havia apenas dois anos quando viu seus sonhos desmoronarem. Passou por vários ginecologistas e dois especialistas em reprodução humana. Fez muitos exames, alguns dolorosos, sem obter respostas esclarecedoras sobre qual era o ‘problema’, então resolveu desistir sem tentar nenhum tratamento. Mas, um dia, com a interferência de uma amiga, ela buscou a ajuda de um terceiro especialista. Aconteceu algo que ela define como ‘antes e depois’ na vida do casal. O médico obteve um diagnóstico: ela tem as trompas obstruídas; e ele certas dificuldades fáceis de serem resolvidas com medicação adequada. O milagre da vida estava prestes a acontecer.

Thaís conta que não se pediu novos exames, o que foi um alívio. De maneira franca e objetiva, as opções de tratamento foram colocadas à mesa. Chegou-se a um consenso. A fertilização in vitro foi feita em novembro de 2006, quando três embriões foram implantados no útero da empresária. No mês seguinte ela estava grávida de João Lucas, hoje um garotão de 3 anos de idade. Grávida pela segunda vez, agora de duas meninas, Marcela e Julia, que estão prestes a nascer, ela se sente realizada. Embora seja uma gestação tranquila, a situação exigiu mais cuidado. Desta vez, o médico implantou dois embriões que estavam muito mais bonitos que no primeiro tratamento, a chance era maior de virem gêmeos. Ela relaxou e deu tudo certo. "Valeu a pena todo o investimento. Estamos radiantes com a família que construímos".

Histórias como a dela estão se repetindo quase todos os dias. No Brasil, uma média de 10 mil crianças nascem anualmente por técnicas de fertilização assistida. O número representa 47% de todos os procedimentos realizados na América Latina, conforme um estudo internacional publicado no periódico científico Human Reproduction, de junho do ano passado. Isto demonstra que as técnicas estão se popularizando, pois evoluíram trazendo mais segurança, menos desgaste, melhores resultados e custos mais acessíveis. Você pode estar pensando, o que eu tenho a ver com isso? Ou isto nunca me acontecerá! Porém as estatísticas mostram exatamente o contrário. Devido a vários fatores, entre eles, o estilo de vida e o tempo que as novas gerações estão levando para querer ter filhos, os problemas de infertilidade têm aumentado na população.

Em média 15% dos casais hoje sofrem com a infertilidade segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, a estimativa é de que pelo menos 300 mil enfrentem dificuldades para gerar filhos. Se diagnosticado a tempo, entretanto, o problema muitas vezes pode ser contornado, segundo os especialistas. Outro ponto necessário de se esclarecer: 30% dos casos decorrem de algum problema do homem, 30% da mulher e em 40% das vezes, de ambos. Antes de recorrer ao tratamento é preciso combater os fatores que contribuem para a diminuição da fertilidade. A obesidade, por exemplo, desorganiza a produção hormonal e a varicocele aumenta a temperatura dos testículos prejudicando a produção de espermatozóides. Entre os fumantes, largar o vício é fundamental.

Por que a fertilização in vitro?

O nascimento da inglesa Louise Brown em 1978, a primeira criança concebida após fertilização in vitro e transferência de embrião, marcou o início de uma era de extraordinário progresso no entendimento e tratamento dos problemas relacionados à fertilidade humana. Originalmente, ele foi proposto para casos de infertilidade tubária, que ocorre em pacientes cujas trompas estão ausentes ou irreparavelmente obstruídas. O surgimento da ICSI – que é a injeção do espermatozóide diretamente no óvulo ampliou as suas indicações, como a infertilidade devido a fator masculino, já que o método consegue recuperar cerca de 1 milhão de espermatozóides após o preparo; a infertilidade sem motivo aparente e todas as causas que não responderam aos demais tratamentos.

Para o médico especialista em reprodução humana José Aldair Kotecki, mestre na área pela Universidade de Campinas (Unicamp) e atua em Mato Grosso há cerca de quatro anos, pelo menos 90% dos casos podem ser tratados a partir de fertilização in vitro, que é um procedimento pouco invasivo e traz excelentes resultados se comparado aos demais tratamentos. Apesar de mais simples, a inseminação artificial, por exemplo, tem taxas pouco atrativas, de 15% a 20% de sucesso apenas, o que significa que um em cada cinco casais consegue engravidar, o que é pouco em razão dos desgastes físico e psicológico empreendidos. Todos que começam têm grande expectativa de que vai dar certo, por isso é necessário buscar uma alternativa que gere o menor desgaste possível. "Tivemos um ótimo ano em 2009, chegamos a 63% de resultados positivos em fertilização in vitro, percentual acima da média nacional. E para mulheres abaixo de 30 anos foi melhor, tivemos 81% de resultados positivos". (Os dados se referem à Life Reprodução Humana Clínica e Laboratório, de Cuiabá, de onde o especialista e pesquisador é diretor clínico)

Ele explica que as mulheres do Estado têm uma peculiaridade em relação aos demais centros: querem engravidar mais cedo. A maioria das pacientes tem entre 25 e 35 anos. A idade ajuda neste sentido. Primeiro, é possível chegar a um diagnóstico precoce da infertilidade, que é mais fácil de ser corrigido especialmente na mulher antes dos 30 anos. Cerca de 10% delas podem apresentar problemas de ovulação em razão de ovários policísticos; 50% distúrbios nas trompas e endometriose (40%), doença que afeta principalmente aquelas que têm cólicas fortes desde a adolescência. "Ainda não existe melhor prevenção à infertilidade do que tentar engravidar, quanto mais cedo se descobrem os problemas mais fáceis são contornados", acrescenta Kotecki. Mesmo com tantos avanços tecnológicos e científicos, a mãe natureza é implacável com a mulher. Ela continua tendo uma espécie de relogiozinho biológico indicando as idades mais adequadas para se ter um filho. É que os óvulos (células sexuais femininas) nascem com elas e passam por todo processo de envelhecimento, desgaste físico, ambiental, além de sofrerem o impacto do estilo de vida, como sedentarismo, consumo de álcool, drogas (podemos incluir na lista alguns medicamentos) e tabagismo. A pré-disposição genética e doenças de fundo imunológico podem contribuir para a infertilidade. Então, adiar a gravidez, por vontade própria ou não, pode ser muito complicado do ponto de vista biológico. A idade ideal para engravidar está entre 23 e 33 anos, mas a partir dos 30 anos as chances já começam a diminuir e declinam aos 37 anos. Com 40 anos, além da dificuldade para engravidar, a gestação é considerada de alto risco, em razão do diabetes gestacional, hipertensão e síndromes genéticas.

Seca por dentro, eu?!

O estado emocional da mulher interfere diretamente na sua fertilidade. A pressão social, da família e às vezes do companheiro pode ditar o rumo do tratamento. A psicóloga Renata Costa, que é mestre em psicologia e professora na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), fez a sua dissertação justamente sobre o ‘mito do amor materno’. Tema extremamente oportuno para entender a cabeça das pacientes que em geral chegam ao seu consultório arrasadas, após inúmeras tentativas frustradas de engravidar. "Ainda hoje se associa muito o conceito de mulher com o de mãe, como se ela não pudesse assumir totalmente sua feminilidade se não puder ou não quiser ter um filho. É comum ouvir frases cruéis, referindo-se a ela como árvore seca".

 

 


Renata explica que o mito do amor de mãe é socialmente construído. Sofre interferências política e econômica. O Estado dita as regras de quando e quantos filhos as mulheres podem ter, por isso varia de uma época para outra e é diferente entre os países. O livro O Segundo Sexo, da filósofa Simone de Beauvoir, provocou há 61 anos na França um debate sobre a condição das mulheres e a relação entre os sexos. Nele, a estudiosa mostra que a própria noção de feminilidade foi inventada pelos homens com a intenção de autolimitação das mulheres. É dela também a célebre frase ‘não se nasce mulher, torna-se mulher’. E para quem acredita piamente que a maternidade santifica uma mulher, a exemplo da virgem Maria, estão por aí inúmeras mães que são verdadeiras aberrações provando justamente o contrário. "A culpa flagela a alma delas, é como se a infertilidade fosse um castigo de Deus, mas é injusto e absurdo carregar esse peso".

Se você tem 30 anos e não se casou, está ficando para ‘titia’. No caso do homem, cogita-se a homossexualidade. Uma vez casados, ‘quando terá um filho? Se já tem um bebê, ‘para quando é o segundo?’. Pelo menos no Brasil, acredita-se que filho único seja sinônimo de problema. Bom, o casal tem dois filhos. Agora é hora de parar, a pergunta da vez para a mulher é ‘você já ligou?’ (referindo-se à laqueadura). Quem ousa insurgir-se contra alguns dos padrões é sempre advertido. ‘Você é louca, quer mais um filho para quê?’, isso quando se tem duas crianças em casa, especialmente se são um menino e uma menina. É aceitável chegar ao número três quando os pais têm dois meninos ou duas meninas. Ah, os casais que não querem ter filhos. Coitados, estes são geralmente hostilizados.

Apesar da pressão, o importante, segundo a psicóloga, é avaliar o que se espera da maternidade. Os filhos não podem significar a ‘salvação de um casamento’ ou sinônimo da ‘felicidade’. Imagine chegar ao mundo com tamanha responsabilidade! Além disso, crianças exigem cuidados, dedicação e muito investimento, físico, emocional e financeiro. "Se conseguimos observar o movimento a nossa volta, ditando normas e padrão de conduta, é mais fácil fazer as escolhas, entre elas, de ser feliz sendo quem somos. Cada um tem sua própria história, é único e especial, mesmo que não tenha filhos. É importante pensar nisso e não se exigir tanto".

Cuidando do próprio corpo

A mulher nasce com uma média de 300 mil óvulos que seguem a vida toda com ela, mas não chega a utilizar 2 mil. Para poder evitar problemas lá na frente, os cuidados extras com o corpo devem se iniciar a partir da primeira menstruação ou menarca, entre os 10 e os 14 anos. A menina deve ser levada ao ginecologista ou a um hebiatra (especialista em adolescente) que poderá dizer se está ocorrendo o desenvolvimento adequado das mamas e pelos. Nos primeiros dois anos, é normal a adolescente ter um ciclo menstrual irregular, mas já pode engravidar. O ápice da fertilidade acontece aos 18 anos. Se já mantém relação sexual, precisa ir assiduamente ao ginecologista, pelo menos uma vez por ano.

O acompanhamento vai ajudar na prevenção de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e Aids, bem como infecções que podem gerar problemas de infertilidade. A clamídia, por exemplo, é uma doença causada por uma bactéria que danifica seriamente os órgãos reprodutores da mulher. O mais perigoso: ela é silenciosa. Outra questão importante. Sabia que ter cólicas fortes pode ser sinônimo de problema? Pode ser sintoma de endometriose, que é um dos maiores fatores de infertilidade feminina se não tratada a tempo. Ela é caracterizada pela presença de tecido endometrial (que reveste o útero internamente) fora da cavidade uterina. Não tem causa aparente, mas a cada menstruação o tecido endometriótico sangra causando dor pélvica, dor durante a relação sexual, queixas urinárias e intestinais. Também é importante esclarecer que tomar anticoncepcional por dez anos ou mais não interfere na fertilidade feminina, ao contrário, muitas vezes ajuda a manter a saúde.

Quero ter um bebê, e agora, doutor? O primeiro passo é fazer as imunizações a diversas doenças, como rubéola, tétano (três doses), gripe H1N1 e hepatite B (três doses); fazer exames de sangue de tipagem sanguínea, doenças, como HIV e sífilis. Na sequência, observar se existe alguma patologia que precisa ser tratada. Não havendo, suspende-se o uso de anticoncepcional ou outro método contraceptivo. Aguarda-se um ano. Se depois do prazo não aconteceu a gravidez, é preciso ir a um especialista que vai pedir exames mais detalhados para um diagnóstico preciso do que está acontecendo.

Tratamentos

A maioria dos casais chega aos consultórios dos especialistas em busca da fertilização in vitro, mas de 20% a 30% deles conseguem uma gravidez com tratamentos mais simples, como estimulação da produção de óvulos (na mulher) ou tratamento de alguma infecção no homem. Então, os tratamentos podem variar de R$ 200 (no caso de medicamentos ou pequenas cirurgias) a R$ 15 mil (no caso de todo processo que envolve a fertilização in vitro).

 


 

Última atualização em Seg, 14 de Junho de 2010 10:08
 

Comentários  

 
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0 #20 Milan 21-01-2015 22:01
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0 #18 Lyn 15-01-2015 22:19
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0 #17 alzivane chagas 24-09-2014 13:18
olá! tenho uma dúvida..tenho 25 anos já fiz 3 transferências(FIV)E nenhuma com sucesso,dizem que é raro dar certo logo de primeira..então pergunto será que tenho chances ainda de dar certo..tem alguns casos que deram certo depois de várias tentativas..preciso de esperanças porque meu problema é apenas nas trompas..obstrução tubária!
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0 #16 ADRIANA FRANKLIN DE SOUZA 04-08-2014 16:22
oi meu nome e Adriana, tive dois e fiz a laqueadura e me separei do pai dos meus filhos mas em seguida me casei e meu marido e apaixonado por enquanto os meninos eram pequenos tudo bem mas depois que cresceram começamos a batalha para eu engravidar fiz a reversão e nadamas nosso sonho e ter um bebe e o financeiro tambem nao ajuda.
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-2 #15 Sandra 14-07-2014 14:43
Olá! meu nome é Sandra e minha pergunta é simples,fui casada e a 13 anos fiz laqueadura,só que me separei e me casei de novo. Será que posso fazer uma Inseminação,para dar uma filho ao meu atual marido. Se sim qual seria os procedimento. :oops: obrigada!!!
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